O Grande Sábio

Fui ter com um dos que se passam por sábios, porquanto, se havia lugar, era ali que, para rebater o oráculo, mostraria ao deus: “Eis aqui um mais sábio que eu, quanto tu disseste que eu o era!”. Submeti a exame essa pessoa – é escusado dizer o seu nome: era um dos políticos. Eis, Atenienses, a impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que ele passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A consequência tornar-me odiado dele e de muitos dos circunstantes. Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: “Mais sábio do que esse homem sou eu; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o que não sei.” Daí fui ter com outro, um dos que se passam por ainda mais sábio e tive a mesmíssima impressão; também tornei-me odiado dele e de muitos outros.

(Platão, “Defesa de Sócrates”, V.II. São Paulo. Abril Cultural, 1972, pg. 15 – Coleção Os Pensadores)

Ironia, ignorância, conhecimento, sabedoria e ilusão tem em Sócrates um significado muito diferente do conceito popular e aceito.

Querofonte consultou Pítia se havia alguém mais sábio que Sócrates, o oráculo afirmou não haver. O filósofo sabendo disso e não reconhecendo sua maestria do saber procurou, como rege o texto acima, alguém mais sábio que ele. Não precisando procurar muito, teve para si que não havia alguém que pudesse ser considerado mais sábio que si, exatamente por todos acharem que eram sábios não sabendo de verdade.

O que é esse não saber por parte de quem achava que sabia alguma coisa? É, na realidade, a confusão que é feita por parte de quem conhece alguma coisa e por isso achar-se sábio.

O conhecimento faz parte da sabedoria, mas saber não é conhecer. Sócrates é o mais sábio do seu tempo. Foi o único que procurou realmente o que é saber. Para isso não precisou procurar tanto, pois tinha consigo a sabedoria.

A sabedoria de Sócrates não é a humildade em reconhecer a própria ignorância, é orgulho de admitir que nada sabe. Ser ignorante, então, não é desconhecer. Todo o mundo conhece alguma coisa. Ignorância é conhecer, crendo com isto ser sábio, confundindo a sabedoria com o conhecimento.

O conhecimento são as informações que temos sobre determinada coisa. Essas informações, por palavras, são denominações dadas por nós racionais a tudo o que existe com a finalidade de comunicação.

Quando Sócrates interpelou aqueles que eram considerados sábios, percebeu que muito conheciam sobre certas coisas, mas o que diziam sobre esse conhecimento era nada mais do que algo que concluíram por si mesmos dando a esse conhecimento, ou a esse conjunto de informações sobre determinado tema ou assunto um aspecto de verdade irrefutável, inequívoca que, em realidade, eram controversas, pois todo significado é uma formulação teórica. Exemplo é um construtor de uma peça qual o conhecimento deste sobre ela é maior do que o que a utiliza; isso faz do construtor mais sábio do que o utilizador?

A sabedoria é a indagação, é o reconhecimento da própria ignorância, é ironia. E Ironia para Sócrates não é como pensamos: dizer uma coisa querendo dizer outra. Ironia é a “ação de perguntar, fingindo ignorar”, vem do grego “eironeia”. O mais sábio e louvado filósofo de todos os tempos não era introspectivo e seu pensar era baseado na intersubjetividade no diálogo. Não dá para entender tudo sozinho, é preciso dialogar, discutir os conceitos publicamente a fim de entender as coisas. Para isso não é necessário concluir algo. É preciso conhecer o que é possível e admitir nada saber nessa infinidade de conhecimentos que são só designações da inteligência racional.

Sócrates provou que a indagação ou ironia, no seu conceito, provoca dúvidas, aspirações de conhecimento, de avaliação de conceitos e, por parte dos sofistas, mesmo os do nosso século, irritação. Ele provou que existe a “ilusão do conhecimento”.

Sábio é quem, como ele, tem a certeza de conhecer não sabendo de tudo ou sabendo que nada sabe.

Não existe conhecimento suficiente, a suficiência está na impossibilidade de conhecer algo absolutamente.

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