IMAGINAÇÃO – SARTRE

imagination

Logo no início de Imaginação, obra do autor ao qual me proponho estudar, percebe-se quais os desdobramentos que vai tomar o livro perante o problema que tenta solucionar. Imaginação seria um problema de imagem, um contraste a ser resolvido entre imagem-coisa e imagem-pensamento.

A priori, afirma que imagem e objeto são coisas distintas, “a imagem é uma coisa, exatamente igual à coisa de que ela é imagem” (Sartre, 1987, p. 36). Ou seja, a imagem é essência e existência ou ainda existente em dois planos, existe como o objeto de que é imagem.

Em primeiro plano, não deixando de considerar o que pensa Descartes, Leibniz e Hume, o autor traça uma perspectiva. Entende que imagem e imaginação são concepções antagônicas. Sobre imagem, vale dizer do mecanismo cerebral em que se processa a imagem ou o objeto da imagem. Ademais, essa seria a preocupação de Descartes “separar com exatidão mecanismo e pensamento” (1987, p. 39). A imagem é o “limite da exterioridade”. Não é animada na consciência, é um mecanismo fisiológico.

A imaginação, por sua vez, é o conhecimento da imagem, a impressão produzida no cérebro que dá “consciência” da imagem. Aqui, pode-se dizer que é o pensamento. Isso é confuso. Melhor é tentar entender dessa forma: a imagem é o que vem de fora para dentro e, a imaginação, de dentro para fora. Fora de si ou fora da consciência, do que é para si.

“Não se compreende como o entendimento se aplica a essa realidade corporal muito particular que é a imagem, nem, inversamente, como no pensamento pode haver intervenção da imaginação e do corpo, uma vez que, segundo Descartes, mesmo os corpos são apreendidos pelo entendimento puro” (1987, p. 39).

Segue-se daí o que Sartre vai nomear de “conversão filosófica”, a “passagem do plano imaginativo para o plano ideativo”. A ideação da imagem se enriquece de símbolos e de significados, à parte isso, é meramente mecânico, uma aparência, como se preocupou em demonstrar. A solução estaria em sujeitar a essência – qual contemplativa e intuitiva – para que sejam consideradas as imagens psicológicas como coisas, ou existentes em si. Haveria de dizer do princípio de que nada chega ao intelecto sem que tenha passado antes pelos sentidos. “Nada existe, em suma, a não ser as coisas”. Ora, seria um impasse, pois se admite a consciência partindo do que é fenômeno, essas coisas entram em relação umas com as outras e constituem, assim, uma certa coleção que se chama consciência.

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Entendida a compreensão de Sartre, avante. A partir de então, o filósofo procura em outros autores concepções diversas sobre a natureza e finalidade da imagem, especificamente a fim de elaborar questões de objeção para fortalecer o seu pensamento. É em Tayne e em Meyerson que haverá maior concentração.

Sartre denomina Tayne de “empirista teórico”, que construiu seu pensamento em um associacionismo híbrido sendo, ora fisiológico, ora psicológico, desdobrando-se em um realismo metafísico.

Para Tayne, a psicologia é uma ciência dos fatos, e nesse sentido busca a solução nos elementos de origem e condição. O autor, contudo, considera haver dificuldade de conciliação entre a psicologia e a ciência experimental e que há uma questão de fato e outra de direito. Mas que seria essa questão de direito, não explica versadamente, apenas diz que como questão de direito há outra coisa além do fato “um pensamento que organiza e que supera a imagem a cada instante” (p. 48). O pensamento seria, para alguns autores, como Brochard e Tayne, uma ligação funcional com a imagem.

Sartre adiante procura soluções para esses problemas. Dirá que, uma coisa, é a “percepção presente” e outra, uma vez constituída essa percepção, os pensamentos elaborados. “Neste segundo caso, a consciência existe em face do mundo, se, pois, formo um pensamento sobre o mundo, cumpre que ele me pareça como fenômeno psíquico real. Não há aqui virtualidade nem possibilidade que satisfaça: a consciência é o ato e tudo o que existe na consciência existe em ato” (pp. 50-51). Quero crer que o que diz sobre consciência seja a própria percepção. No entanto, este não é ainda um juízo do autor. Até aqui foram analisados somente filósofos do séc. XIX. Estas questões desencadearão um outro problema: a percepção e a imagem.

Percebe-se a dificuldade em não fazer confusão entre imagem, percepção, memória e pensamento. Em uma frase isolada Sartre cita até mesmo algo que chama de imagem-lembrança. Considera que essa distinção é mais metafísica do que psicológica. “O que ela é, já vimos: a percepção é a imagem relacionada à ação possível do corpo, mas que permanece ainda encaixada entre outras imagens; a lembrança é a imagem isolada, destacada das outras como em quadrado” (p. 57).

Ora, falar sobre imagem-lembrança é complicado, mesmo para ele. Seu tentame foi resolver o que seria o presente, já que a lembrança pertence ao passado. “Aceitamo-la como ela se dá: devemos observar desde já que um presente que é ação pura não seria capaz, por meio de desdobramento algum, de produzir um passado inativo, um passado que é idéia pura sem ligação com os movimentos e as sensações” (p. 57).

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Em síntese, Sartre vai passar a contradizer a alguns teóricos clássicos e frisar sem diferenciar a imagem da percepção. Explica que deveria haver duas exigências para uma teoria da imaginação: a discriminação espontânea, que se dá no espírito pelas imagens e percepções; e o papel que a imagem desempenha no pensamento.

De imediato, o filósofo antecede sua conclusão parcial antes de aprofundar na teoria de Husserl. “A imagem é uma realidade psíquica certa” (p. 95). Objeto e imagem são diferentes e próximas ao mesmo tempo, há o objeto da imagem e a imagem do objeto. O objeto é existente, presente, perceptível e, a imagem uma realidade psíquica. Sartre deixa ainda mais ou menos claro que a atenção voltada à percepção do objeto gera uma imagem ou, ainda, percebe-se o objeto como imagem; já a atenção voltada exclusivamente para a imagem e não para o objeto gera reflexão. Ainda falta explicar como sabemos se uma imagem é realmente uma imagem (realidade psíquica). Como se constata o momento exato que uma imagem aparece?

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Sartre conclui que a imagem é um fato psíquico, certo tipo de consciência. Não é uma coisa, é um ato, consciência de algo, é síntese e não elemento. O caminho que aconselhou seguir foi o de uma psicologia fenomenológica, inspirado por Husserl.

 

Obra Citada

Sartre. (1987). Imaginação. São Paulo: Nova Cultural.

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