A VEIA ARTÍSTICA DO AUTOR É SEU ESTILO

O estilo é uma arte e não um hábito. O hábito está difundido, a leitura é incentivada. O estilo é uma particularidade do escritor, que exprime um bom texto artisticamente. A arte vai além de redigir ou ser um profissional, o autor é artista quando tem estilo. Quando não tem, resta ser escritor e não artista.

 ESCRITOR-REDAÇÃO-BLOGTOTUMUNO

 

  A poesia é uma arte literária onde o seu conteúdo pode ser lírico, heroico, dramático, melodramático, trágico, cômico, ou tragicômico. É dividido em estrofes e as estrofes subdivididas em versos. Nas poesias encontram-se diversos estilos.

  A estilística é uma matéria à parte da Gramática, contudo, assimilada a ela. A Gramática estuda mais detalhadamente a estrutura da linguagem de um idioma: as letras, frases e suas construções, variações, formas-padrão da língua vigente em um país, as relações entre si, assim como seus defeitos. Esses estudos são denominados: Morfologia, Sintaxe, Morfossintaxe, Fonética, Semântica, e variantes; pontuação, concordância, regência, etc. A Estilística estuda, pormenorizadamente, o estilo, que é a forma de escrever, personalíssima. Nesse âmbito congregamos o ritmo, o modo oracional, o padrão de desenvolvimento de conteúdo, características de neolinguagem, etc.

  Cada autor tem o seu estilo. Isso não significa dizer que a forma pessoal de escrita é exatamente um estilo. Se alguém tem hábito em escrever formas oracionais inválidas pelo padrão culto da língua; se, por defeitos de linguagens, redige textos erroneamente ou com vícios, isso não é estilo. Estilo é arte. Bastasse somente a Gramática, no entanto, há que se respeitar a maneira individual-redacional com que preza cada qual com suas construções frásicas.

  Com essa ideia, é possível entender os autores de romances, os contistas, os poetas, nas suas formas de linguagem; é estilo. Sempre há aquele autor por quem certo leitor sente mais afinidade que outro, com outro autor. Quando isso acontece, tem-se aquela sensação de intimidade caracterizada por um aconchego, de modo que a dinâmica da leitura é maior. Nisso, o leitor pode saber que aprecia, mesmo que inconscientemente, o estilo daquele determinado autor. O fato diz que: o estilo é o que encanta. A linguagem sozinha é fria. Os apreciadores da Gramática são mais rígidos, gostam de padrões, colocam limitações e prezam pela regra. Os apreciadores da estilística utilizam da gramática para, sem a preocupação de estarem cem por cento corretos, utilizar ideias com arte textual. Não dá pra dizer que o gramático é um artista, ou que um literato é artista da língua, por ser correto e irrepreensível na escrita. Ele está mais pra um intelectual, linguista. O que tem estilo tem arte. Literatos são, em geral, exímios escritores. Em alguns deles há evidência de estilo, em outros, o que se evidencia é forma constitutiva de conteúdo, sobre como olha para determinado assunto, ou como tem a capacidade de discernir aspectos humanos contados nas personagens. Sim, um literato pode ser bom em construir ideias (filósofo), narrar histórias (narrador), descrever ou criar personagens (dramaturgo), desenvolver conteúdo linguístico (gramático), ou, simplesmente, em produzir simpatizantes textos que fascinam pela forma ou ritmo (estilista).

  O estilo acontece com os romancistas, contistas, novelistas que com sua forma peculiar, muitas vezes, arrebatadoras produzem suas obras. Por outro lado, os poetas encantam ainda mais. Além de a poesia ser um fenômeno da língua, bela sem precisar de outras interferências externas, há o estilo de cada poeta que a torna ainda mais bela.

  E aqui é chegado o ponto interessante.  Na poesia o estilo é mais livremente abordado. E os poetas possuem uma diversificação de possibilidades maior. Há quem acredite que o bom poeta é aquele capaz de produzir excelentes métricas, como se poesia fosse sinônimo de métrica. Uma poesia pode ser elaborada com métrica, ou não. Convenha-se de que já foi introduzido, logo no primeiro parágrafo, sobre poesia.  Dado o proveito para continuidade, cabe aprofundamento.

  A métrica é a divisão igual, na poesia, de sílabas nas estrofes. Contudo, na arte poética, esta divisão das sílabas não se dá como no estudo da Gramática. A Gramática divide as sílabas com base no estudo da Fonética, pelo entendimento das vogais, semivogais e consoantes. A saber, por exemplo: abdicar, é dividido “ab-di-car”, isso significa que esta palavra é trissilábica, por conter três sílabas. O “b” mudo não poderia estar só, ausente do “a” anterior, porque ele só (separado por sílaba) é o equivalente a dizer “bi” como se fosse b+i. Na palavra, o som “bi” vem junto ao “a”, mas sem o “i”, como “b” mudo. O hiato é outro fenômeno da fonética com sua característica e regra na divisão silábica. Saara, por exemplo, é divida assim “sa-a-ra”, pois o hiato é uma junção de duas vogais, em sílabas diferentes. Assim não fosse seria um ditongo, como em “aguardar”, dividido desta forma: “a-guar-dar”. Com isso, é possível discernir o que daqui é divergente da divisão poética.

A métrica tem uma divisão particular que depende do ritmo, mais que das regras gramaticais. A contagem vai depender da sílaba tônica na última palavra, os hiatos podem virar ditongos, as pontuações são ignoradas, etc. Vale o exemplo abaixo – a lembrar de no caso a última sílaba ser tônica, não se conta:

Mi/nha/ ter/ra/ tem/ pal/mei/ras,/             (8 sílabas gramaticais)

Mi/nha/ te/rra/ tem/ pal/mei/ras,              (7 sílabas poéticas)

On/de/ can/ta/ o/ Sa/bi/á;/                         (8 sílabas gramaticais)

On/de/ can/ta o/ Sa/bi/á;/                          (7 sílabas poéticas)

As/ a/ves/ que/ a/qui/ gor/jei/am,/            (9 sílabas gramaticais)

A/s a/ves/ que a/qui/ gor/jei/am,              (7 sílabas poéticas)

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ lá./                     (7 sílabas gramaticais)

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ lá./                     (7 sílabas poéticas)

 

  Fora a métrica, há outras formas de poesia. Essa arte pode ser expressa somente pelo fenônemo da rima sendo que, cada verso irá rimar com outro, de várias formas. Na divisão da estrofe, é possível identificar onde cada verso rima com outro. É usado assim: a) forma intercalada (AA, BB, CC); b) forma oposta (A, B, B, A); c) forma alternada (A, B, A, B); d) forma continuada (a mesma rima por todo o poema); ou c) forma misturada (não seguem alguma posição acima, mas contém rima espalhadas pelas estrofes). Um poema pode ainda ser um soneto, um terceto, pode ser livre. Pra encerrar, o ritmo de uma poesia não necessariamente precisa ser por meio de rima, pode ter seu ritmo caracterizado pela aliteração. Mas o que define uma poesia? Muita gente acha que escrever qualquer coisa em estrofe é poesia, somente porque é admitido o uso livre.

  Assim, é necessário chegar-se logo a uma conclusão. É preciso definir o que é um versejador e o que seja um poeta. Um poeta é um artista que versa poemas, é um literato, seja lá qual forma se utilize. Um poeta não é um grande versejador (construtor de versos), mas pode ser. O que tem talento para versejar pode da mesma forma, não ser um poeta.

  Encontradas informações básicas suficientes para uma exposição de opinião, tenho a dizer que há muito mais na experiência da leitura do que uma hermenêutica (interpretação). Nela, há relação remetente/receptor, um convencimento, esclarecimento, narração, por parte do remetente, e uma interpretação por parte do receptor. Só que a leitura vai além de entender o texto, ou seja, auferir o que o autor quis dizer. Existe a conquista do interlocutor, além dos argumentos. É preciso tocar sua essência. E para isso, é necessário ter estilo. E pra ter estilo é preciso ter a didática, a hermenêutica, ou a gramática como consciência, e a arte como essência. Precisa ser um escritor artista, que escreve não por dever, ou por passatempo. Hoje todo mundo (de uma sociedade civilizada, no mínimo subdesenvolvida) escreve. Leandro Karnal, historiador, crítico da inteligência, da atualidade e das redes sociais, diz que hoje existe a geração que mais escreve desde todos os tempos. As pessoas estão muito habituadas ao WatsApp e Facebook, há uma profusão de blogueiros. Não importa se a escrita seja ao modo “rede social”, sucinta e abreviada: as pessoas escrevem bastante hoje em dia, e o dia todo. Isso não dá a elas a capacidade de serem artistas da escrita.

  O estilo é arte do escritor, entusiasta ou profissional, mas que ama o que faz por ser a sua arte, sua expressão de alma. Existe a escrita, e os bons escritores, e existe a arte de escrever e os artistas da escrita. Um artista da escrita pode ser um poeta, linguista, filósofo, romancista, gramático até, mas sua relação com as palavras vai além da forma estrutural e categórica. Essa percepção de estilo é identificada pela sublimidade vocabular, enunciativa, ou descritiva de peculiar amabilidade. Não dá pra dizer que alguém que escreva de forma habitual, sem interesse pela escrita – senão por fatores externos que o impulsiona escrever – tenha um estilo. Não se fabrica artistas, a arte é lapidada pelo entendimento e forma, mas será arte por ser maior que isso. Ora, o músico recebe uma formação que não dá a ele a capacidade de ser artista. Arte é potencial interior e não uma gama de aprendizado teórico. O ator pode estudar sua arte, mas isso não faz dele artista. A teoria, a fórmula, as regras servem como lapidação, possibilitam maior consciência e desenvolvimento. Fato sobre a arte, falada ou escrita, ser além da Gramática é, por vezes, o estilo de um autor estar caracterizado pelo uso de regionalismos, tal qual de neologismos. Formação artística é mais que estrutura, base e teoria, é desenvolvimento dinâmico de um potencial, que se chama veia artística, adormecida nas pessoas que podem ou não desenvolver isso. E quando desenvolvido, encanta.

 

 

Anúncios

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s